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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Pequena Melodia de Amor




 

Acho que um dos temas o qual eu ainda não abordei no blog foi o amor, essa coisa humana maravilhosa. Pois então está mais que na hora de fazê-lo. No poema que se segue eu tentei dar um caráter consciente a esse sentimento, mostrando-o às vezes cruel, belo, turvo, louco, fantástico e místico. É pequeno, mas a idéia é essa, atomizar esse sentimento de proporções gigantescas em poucas e sinceras palavras.







 Pequena Melodia de Amor (Guto)

Amor é irmão da espada,
Divide-nos o corpo em dois
E nos abre uma encruzilhada.


Amor ri em sua travessura,
Por nos ter, tanto agora quanto depois,
Faz nos alvo de sua usura.


Amor é lenda nunca encontrada
Como um delírio ou sonho nublo
No qual esconde a pessoa amada.

domingo, 8 de novembro de 2009

O BLUES MENOR

Olá galera, depois de longo tempo sem postar nada, consegui arrumar tempo e inspiração para postar um texto aqui. O poema que se segue eu compus essa semana justamente para colocá-lo no blog e serve como um retorno às postagens abandonadas (Uhaaau). O texto é simples e as palavras falam por si mesmas e trata da relação entre um homem e seu vício, sobre seu amor e ódio, atração e repulsão perante o mesmo vício que horas o enche de júbilo, outras o derruba na miséria. Boa leitura.





O BLUES MENOR (Guto)

Dou goles na nefasta taça
Bebo este veneno amor,
Horas me enche de graça
Outras acho-a um fim sem cor

Lembro-me:”Sou tão pequeno”
Perco-me e adentro o mar,
Cobre-me este sabor veneno
E sonho sem um despertar.

Sorvo esta canção do Eros
Leve fio que me alimenta,
Sons que sei criar tão belos
Vem dessa fonte violenta.

Hades de quem roubo um beijo
Só p’ra sentir o fenecer.
Ondas pelas quais velejo
Sorvo p’ra depois morrer.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Uma Torre de Marfim



Pois bem, aqui vamos nós com mais um post neste blog. Os olhos mais atentos verão aqui um poema (rsrsrsrs- só para descontrair). Não acho que dessa vez precise ficar explicando muito sobre o que trata ou deixa de tratar esse poema, são as costumeiras torrentes do inconsciente lançadas numa folha de papel, no fim elas acabam falando de algo. Está aí o desafio: “O que vocês acham que este poema está insinuando?”

Um abraço e até a próxima.






Uma Torre de Marfim (Guto)

Do alto da torre tentei me atirar,
Só para buscar esta luz que não me quis.
Ela tem suas ocupações radicais
E não vive um minuto se quer para mim.
Ela quer voar, e me faz querer também,
Amar tuas graças com os olhos voltados para o fogo.
Com essa luz caprichosa, a sorte me vem e vai,
Mas já não temo o futuro indeciso
Desde que a poesia não me saia dos ossos,
Desde que meu espírito não abandone a vida
E a natureza não pare de criar o espetáculo
Com o vento a curvar as árvores em reverência.

Do alto da torre eu tentei contemplar
E a solidão era etérea.
Ouvi nossas vozes, erradicadas com o tempo.
Das alturas eu vi que nos matamos aos montes,
Ferimo-nos de morte toda noite.
Tudo em nome de Deus ou de algum diabo.
Não nos olhamos nos olhos
E nem abraçamos o grande mar.
Tudo pela graça de algum infértil deus
Ou pela culpa de algum pobre diabo.

Do alto da torre tentei me apagar,
Pois os dias já são tão parecidos.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Pensando em um excêntrico filósofo!!!



Comecei a escrever essa pequena prosa poética (como eu costumo chamar os minúsculos contos em forma de pensamento que eu escrevo), no Hospital Roberto Santos, estava trabalhando e bastante entediado, pensando a princípio em como trabalhamos em um hospital (nós pessoas) e parece até que estamos trabalhando num shopping Center. Não respeitamos a maioria daqueles pacientes que estão ali e tratamo-nos como gado. Isso me fez ver novamente aquela máscara que está em nossas faces, nós escondemos atrás dela e no fundo não há nada além de animais não muito diferentes dos que se vêm por ai. Tive pena de mim e de todos nós, por ver o quão chegamos a essa evolução tecnológica não acompanhada de uma mesma evolução mental. É lógico que o filósofo que eu cito no título é Nietzsche. Curtam e comentem!!!








Pensando em um excêntrico filósofo.



Caminhava por aí “O Indesejável”, sem um destino específico, flutuando através da sua falta de capacidade de, sem nenhuma fagulha duvidosa, ser bem quisto por aqueles que ele sempre jugou serem os seus e levar adiante qualquer sentimento que lhe venha da Atma.

Teu sonho e os sentimentos que dele provem é uma noite nublada com a cidade se enchendo de luzes débeis, não que estas débeis luzes, desta forma não tenham graça, mas o que nos importa aqui é o fato delas refletirem o brilho deste seu interior ignorado.

O que este ente indesejável pensa que sabe sobre coração e alma não se encaixa no que se compreende por vida prática, instintos primitivos chocando-se e vidas banais do cotidiano indefeso.

Sei que certa noite eu vi esta alma singular despertar no meio da madrugada, atendendo ao brusco chamado do abismo, sentou-se na cama, sentia-se indefeso, patético. Eu o vi tentar encontrar um refúgio amargo e alcoólico, mas aqueles sabores já não lhe consolavam mais. Pensou num poeta distante – “Hemingway”. Tentou, mas não concordava em nada com uma de suas frases, sua experiência o impedia. Sentia-se uma ilha. Ele queria navegar para além daqui, abandonando o Devir.

No fim, tudo que sei e que posso dizer é que ele se foi. Será que sentirão a sua falta? Pensava assim quando partiu. Algum dia, irão te encontrar, algum dia irão te amar.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O Outro (Fragmento)


O fragmento a seguir é o trecho dum livro que eu estou escrevendo e para descrever a história desse livro eu aposso-me das palavras de Peter Kamezind, quando ele dizia "tenho que escrever a obra de minha vida". Pensando nisso, recordo que no fim dessa narrativa de Herman Hesser, Peter termina não concluindo a obra da sua vida, pelo menos não na dimensão literária, mas de outra forma. No meu caso, eu pretendo terminar pelo menos dois dos meus projetos literários. Um deles é o livro no qual este trecho está contido. Chamasse O Outro, e neste trecho vemos o personagem principal versando a cerca da necessidade da solidão, sobre a influência e a beleza da mesma sobre sua vida. Boa Leitura.


O OUTRO...fragmento...(Guto)


(...) Sob um rosnante temporal, eu pensava e meditava a cerca dos desígnios de minha solidão. "Devo amá-la". Penso nisso para tentar dar forma à importância dela em minha alma inconstante. Devo, por fim, trilhar esse caminho, me apegar a esta solidão e saber que neste mundo não me há um igual, um companheiro e cicerone. Onde mais encontrarão um indivíduo racional, cuja alma ferve num romantismo voraz, que sente que o mundo precisa dum algo mais e se pergunta por que as pessoas saboreiam a vida duma forma tão insípida?

Dessa forma eu me vejo num infinito mar, sem visão de um porto seguro ou de uma rota amiga há bilhões e bilhões de quilômetros. Pois é, é assim que eu me sinto ao sair por ai num tenro passeio solitário em uma tarde qualquer, apreciando a coloração de uma tonalidade púrpura que caracteriza o crepúsculo. Observar essas coisas e os mistérios profundos que elas encerram representa para mim sempre um tesouro incalculável.

Vejo os outros caminharem por aí, adquirindo mais um dia em suas vidas, comem, bebem, dormem e esperam thânatos. Realmente tal visão é desoladora. Como é possível não pensarem na essência de suas almas, aceitarem as coisas tal como estão e julgarem toda essa imundice destrutiva normal? Eu não posso, e nem consigo, em nome do bom senso e do romantismo.

Em meio a toda essa insanidade, eu só prevejo para mim ela, a solidão, caminhando comigo, do meu lado, descansando o braço no meu ombro e sussurrando em meu ouvido palavras de consolo e coragem. Já posso vislumbrá-la e até senti-la próxima, não sei quando, mas já chegando, necessária e fatal. Está indubitavelmente alvorecendo em mim, no meu desprezo pelo coletivo, pelo vulgar. Eu nasci sob tua estrela e ela me ilumina (...)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Poema para um Pombo anônimo






Pode, a princípio, parecer deveras piegas escrever um poema para um pombo morto. Pois bem, é com esse tipo de pensamentos que paramos de olhar nos rostos uns dos outros e esquecemos que em muitos cantos da cidade poeirenta há, não só pombos mortos, mas indivíduos moralmente mortos e é disso que esse poema fala em sua real essência. O pombo aqui nada mais é do que uma representação para a legião de imundos que habitam qualquer cidade grande e ajudam a criar esse enorme panorama de contrastes. Diferenças e indiferenças. “Nada é mais assassino do que a ignorância.”







Versos Moribundos
(Vozes da Sarjeta) Guto

I
As ruas não mais irradiam a serenidade
Donde o pombo tombou podre ante a noite.
Os vermes que lhe brotam do seu minúsculo ventre
Querem me oferecer suas respostas pegajosas.
Ninguém os bem quer, por isso devoram
Toda carne ao alcance da sua fúria.
II
Minha serenidade tombou com o pombo
E a sua carne senil igualmente apodreceu.
Por isso penso em minha alma que,
Com asas obscenas, como as do morto pombo,
Também não pode para os céus voar,
Para olhar para esses milhares de faces
Hapáticas nesse desespero decadente
Sob o qual nos mergulhamos
Dia a dia em mediocridade e aceitação religiosa.
III
Juntos, devoramos o corpo inerte do pombo
Em teu bico fúnebre não mais brotam cantigas quais quer.
Nada que lembre a altivez áurea do outrora embriagado.
E só vejo a sua volta o barulho estério se chocando
Com a estupidez da cidade indecisa.

O Conto da Pequena Pródiga ou Os delírios da Inocência (Guto)



O Ciclo não pode parar!!!

No meu segundo post vou colocar um conto de minha autoria. Trata-se dum conto que narra de uma forma ao mesmo tempo erótica e poética uma estranha noite na vida de uma inocente meretriz. Ela se encontra atraída por sabe lá qual força do destino e as coisas vão se passando de forma estranhamente mágica para ela. Para onde ela vai com esse olhar petrificado?! Vamos ao que intereça.

Caminhava ela sonhadora em uma das muitas noites em que passeou pela vida,
Alheia a tudo naquela noite especial, mas algo realmente atormentava-lhe.
Tua alma de menina, criança perfumada, apenas 16 doces anos vividos
Entre o que as rosas têm a oferecer a uma criança
E o que os homens na noite têm para dar a uma mulher.
Realmente algo lhe atormentara,
Mais hesitante do que nunca ela foi às ruas
Seu ofício chamava-lhe, exigia tua presença, teus talentos e sabedorias incandescentes.
"Caminha abelhinha feitora de mel"
Eis que ela caminhava e fazia sua entrada em mais uma noite
Que seria mais uma qualquer,
Não fosse por aquela estranha hesitação.
Um olhar alheio nublava-lhe a face pálida,
Branca como um cadáver, mas um belo cadáver.
E era exatamente como um cadáver ressuscitado que ela deambulava pelas ruas
Em direção ao seu destino noturno.
Parou na esquina como era de costume.
Que pensava ela com aquela estranha beleza esquálida,
Parada em pé no meio de uma avenida,
Mas ausente aquilo tudo?
As pessoas, os carros cruzando as ruas e as luzes de natal que insistiam em brilhar freneticamente.
"Nossa talvez fossem elas, as luzes."
"Ou quem sabe não seria a época?"
O natal se aproximava e trazia com ele um emaranhado de sonhos e fantasias,
Os quais, seu estilo de vida criava uma barreira moral que a impedia de se deleitar.
Seria esse o motivo de tanta perplexidade?
"O, minha pobre criança pálida, quem me dera poder sanar essa dor
Ser ao menos um de seus amantes. “Não, dessa forma eu só desejaria teu corpo e renegaria tua alma de criança e teu semblante de virgem imaculada.”
Ao olhar seus olhos agora, eu vejo esse desespero silente que te atormenta
E te transforma neste enigma petrificado, quão mármore moldado em estátua.
Seus olhos não estão vendo o mundo, mas sim essa condensação inusitada que forma este teu interior caótico.
"Como pode alguém se entregar tão comoventemente assim a uma meditação?"
Uma canção sopra-lhe no ouvido, na mente como uma espécie de mantra ou coisa que valha.
Um homem aproxima-se dela e sussurra-lhe no ouvido algo.
É o velho pedido, ou convite, talvez mais uma ordem que outra coisa.
O homem de aspecto distinto afasta-se dela tão naturalmente
Como somente os lobos sabem fazer, cheios de cautela, leveza e uma truculência ao mesmo tempo
Sumindo na multidão, deixando a pequena heroína no seu mesmo estado de desdobramento.
Ela põe-se a andar, dirigia-se a uma pequena missão, a um endereço,
Lugar outrora já visitado por ela.
Depois de andar alguns minutos ela chega num estabelecimento,
Um motelzinho mediano daqueles disfarçados de hotel,
Entra, sem cerimônia, pela porta, cumprimenta o garoto morno que trabalha na recepção e sobe as escadas
Rumando para certo quarto, para fazer certa coisa.
Mas o importante é que o mantra, aquela música dos sonhos, do seu inconsciente, continuava a acompanhá-la
Levando-a em valsas, tangos e uma loucura bem peculiar que a empurrava para aquele quarto
E para, seja lá o que ela estava pensando naquela noite, talvez no seu destino,
Não o quarto, é lógico, mas um destino maior, talvez até a razão de sua existência, se é que tal existe.
"O AMOR FATI DE NIETZSCHE."
Depois de subir várias seqüências de degraus ela se deparou com uma porta,
Bateu nela com a dobra dos dedos três vezes até ouvir passos, vindo na direção da mesma.
Quando a porta se abriu um homem, nos seus quarenta anos apareceu e deu espaço para que ela entrasse,
Ele sentiu o aroma do perfume da sua mocidade tomado por uma vertigem melodiosa.
Ela não falou nada para ele e entrou se dirigindo para a janela, donde dava para ver as ruas.
Mais do que nunca elas estavam infestadas daqueles insetos.
Não!
Ou seriam?
Realmente eram elas, as luzes de natal, e ela já havia sido pega outra vez por seu poder hipnótico e encantador.
O mantra apresentava-se vivo em sua mente, suave e doce, vibrando por todo o seu corpo,
Entrando em seus olhos na forma das luzes de natal,
Eletromagnético.
Ela abandonaria seu corpo?
O desconhecido aproximou-se por traz dela e pôs-se a beijar-lhe o pescoço delicado de menina
Passando simultaneamente língua e lábio, alternando mordidas e beijos.
As mãos dele deslizavam pelo corpo da garota, trazia-a de volta do transe,
Enchia-a de desejos, de vontades subterrâneas e inundava-lhe lugares secretos do teu corpo.
Em meio a violentos suspiros e a forte movimentação de excitação do seu abdômen ela se virou,
Pegou-o pela nuca e pôs-se a beijá-lo com uma destreza selvática e ao mesmo tempo com uma delicadeza de professora.
Sua língua movimentava-se ígnea dentro do lábio do homem, contraindo-se, estendendo-se
E indo em direção a garganta,
Suas mãos também trabalhavam. Mãos pequenas e ágeis, que conheciam corpos masculinos,
Que já os havia visitado e que já lhes explorara partes íntimas.
Era exatamente o que elas estavam fazendo, procurando, acendendo chamas perigosas,
Tocando em objetos ocultos, trazendo-os para claridade e sentindo seu poder avassalador.
O homem suspendeu-a pela cintura e deitou-a na cama que havia no pequeno quarto de hotel,
Seus lábios, em seguida, percorreram todo o corpo dela, desnudando-a,
Fazendo-a desabrochar, preparando-a para o espetáculo.
Sim, o espetáculo já estava quase pronto!
Ele deitou-se por sobre ela, ela já esperava, já conhecia daquelas coisas,
Era já uma rotina velha e sabida,
Não haveria beijos apaixonados, só aquele corpo masculino que oscilava rapidamente, para traz e para frente sobre ela,
Penetrando-lhe o corpo, dando-lhe e tirando-lhe o prazer.
Seus sussurros ofegantes ecoavam pelo quarto, batiam na parede e morriam,
Mas continuavam se originando da fonte, dos seus lábios abertos pelo desespero do prazer.
O homem continuava oscilando vertiginosamente, olhando-a nos olhos como um chacal
E sentindo aquela sensação elétrica que percorria-lhe o corpo,
Era o prelúdio da aproximação do fim,
Do grande êxtase.
Ele veio e encheu-os de tremor por todo o corpo, tremor e eletricidade.
Terminou.
Permaneceram segundos calados, o homem sobre seu corpo delicado, frágil.
Ele não falou nada, apenas levantou-se e foi para a janela.
Ela se levantou e foi para o pequeno banheiro que havia no quartinho,
Levou um breve minuto para se banhar, para tirar o suor do ofício,
Para se preparar para as ruas novamente.
Já saiu arrumada, pronta.
O homem a aguardava com o dinheiro em mão, fumava um cigarro.
Ela recebeu o dinheiro, abriu a bolsa, guardou o dinheiro e tirou um cigarro de lá de dentro.
O homem ofereceu-lhe fogo e ela aceitou, acendeu o cigarro e voltou paras ruas.
Mas do que nunca o som do OM vibrava em sua mente, em seu espírito.
Ela tinha certeza absoluta de que essa noite teria um encontro com seu destino, seja ele qual fosse.
Todos os sinais indicavam isso, as luzes diziam isso.
Ela parou novamente na mesma esquina na qual se encontrava minutos antes
E aquela expressão triste e ao mesmo tempo sarcástica, desesperada e ao mesmo tempo esperançosa e espiritual voltou a resplandecer no rosto da pequena Dama do sexo. O seu mistério voltava com força total. Ela abraçava esse abismo com fervor religioso, com fanatismo e devoção.

Ela estava perdida...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Primeiro Post






Ai vai o debut do blog. Como eu tinha dito na descrição, esse blog tem o objetivo de postar meus pensamentos das mais variadas formas, assim achei que seria interessante começar postando um poema. O título dele é bem sugestivo, O Eu, ele traz uma confusa e essencial abstração sobre a relação do nosso próprio eu com o tudo que nos cerca e nos impõe sua influência, muitas vezes sem que percebamos, e nos relega a mísera posição de receptáculos passivos. Espero que curtam.




O EU (Guto)

Eu sou uma armadura e uma casca,
Um amontoado biológico.
Sou todas as dores que ecoam do meu ventre,
As chagas que de minha carne irrompem
E os líquidos que por mim percorrem
Até saírem expulsos dessa armadura.
E ainda assim,
Eles são eu.
Pois o lodo que nos pântanos borbulham
Misturados com o miasma fétido
Também é a minha matéria
E a minha matéria é tudo
E tudo é a minha matéria.
Ainda assim mesmo sobre tais circunstâncias
Devo afirmar categoricamente, antes de mais nada,
Que o tudo que eu sou, não sou eu.
Pois o eu que deveras sou
Encontra se perdido em algum lugar
E o tudo que sou, e que não é eu,
Realmente nunca foi eu.
Este eu foi me emprestado pelo tudo
E assim no tudo eu estou, e não sou.
Desta forma eu permaneço sendo o tudo
E permaneço também sendo eu.
O eu enquanto tudo.
Mas em contrapartida permaneço eu
Esse eu é o eu para mim enquanto eu mesmo.
O eu oculto e não revelado.
O eu solitário e ideal.
Ele existe onde eu nunca fui
Mas, ainda assim, posso afirmar
Que ele está lá.
Só que mesmo sabendo eu não posso prová-lo
Pois mesmo eu sendo eu
A maior verdade é que eu nunca fui eu
E se alguma vez já o fui
Não posso isso saber agora.
Pois o eu que sou agora
Não é conivente com o eu que eu deveria ser.
E mais ainda, o eu que eu sou agora
Não sou e nem nunca foi eu.
Pois esse eu que eu sou e não sou é o tudo.
E o tudo que eu estou sendo, mesmo sem ser
Foi me emprestado para eu ser.
Por isso não vejo como posso ser algo que não sou
Já que em verdade é o tudo.
Faz parte de mim, mas não sou eu.
Eu sou o tudo e quanto ao tudo
Ele também sou eu, mas por pura imposição.
E assim enquanto eu sigo sendo o tudo
Não tenho necessidade nem de ser nem de buscar
O outro eu perdido.
O que sempre fez parte de mim
Mesmo eu não sendo eu, e sim o tudo.
Esse eu pode ser eu enquanto eu sou o tudo
Mas o eu enquanto o tudo jamais pode ser eu.
Pois o tudo nega o meu eu
E o meu eu passa a ser o tudo
Deixando de ser eu para ser apenas uma sombra
No tudo.