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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

TRISTESSA EM MI MAIOR (presságios)

E O FILHO PRÓDIGO ENFIM RETORNA[...]




TISTESSA EM E MAIOR (presságios)
(GUTO)

Tão triste, como é praxes, enxergo o fim voltar,
Sorrio tão calmamente e sei que não há um lar.
Invento um personagem sem braços pra acolher,
E vejo em sua imagem algo que lembra você.


Desde que fingiu amor, renegou meu sangue.
Abraçou-me ao vento, mas seu abraço é intangível.
Alergia suspira à nossa volta e a morte vem.
Transpira por terna intangibilidade, tão cheio de desdém.

Onde não mais finjo e isenção da culpa superior
Os homens já ousam se deleitar como símios.
É tudo um poema sem cor, ouço-o dizer:
“Com o abraço terno (...)”

A jornada que ele me prometeu não tinha retorno ao lar.
Nunca ouve.
Desde que nos perdemos do abraço terno 
Redemoinho de intangibilidade.

Apego-me às forças dessa incerteza
E construo um barco de eterno velejar.
Ele fala de amor, sussurra e morre.
Mas não me conta o segredo óbvio.

“Queres saber como eu me sinto?
Leia no interior daqueles poemas sujos
E sorva o néctar do saboroso absinto.”
Aquelas palavra infectaram o meu coração.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

ONDE JAZEM OS POEMAS???

terça-feira, 18 de maio de 2010

Prelúdios da Forca (Guto)



 

É tarde da noite e, sentado na minha imunda cela, eu penso, e isso chega a ser até uma ironia. Afinal homens da minha estirpe nunca foram dados ao pensamento e muito menos a explanações filosóficas, pois eu sempre achei que o homem é um animal, e como tal ele não nasceu para perder tempo pensando, mas sim vivendo, agindo e lutando de acordo com seus extintos e necessidades. E para isso, pensar não passa de uma excentricidade e um capricho desnecessário na maioria das vezes.

Passei tanto tempo com essa idéia na cabeça e só agora percebo que ela também é um pensamento ou algum tipo de corrente filosófica, comigo mesmo sendo seu maior sacerdote e fiel. Talvez isso signifique que nem mesmo os indivíduos mais truculentos e biltres, como eu, possam escapar de ter pelo menos uma forma de filosofia norteando-lhe a vida. Da mesma forma que, acho eu, até os mais rebuscados pensadores não possam evitar cair no instintivo e primitivo às vezes.

O leitor ao se deparar com tais revelações e conclusões devem estar por imaginar que belo pensador eu não poderia ter sido, se não houvesse escolhido pela vida da criminalidade. Na verdade o motivo único que me leva nesse momento a me lançar nesses devaneios verossimilmente metafísicos é o fato de me encontrar enjaulado, tal como uma fera nociva à sociedade ordenada, o que na verdade é o que eu sou, ou me tornei. O provável é que se eu estivesse nas ruas, eu estaria unido a algum séquito de salteadores e ladrões das piores espécies realizando nossas cotidianas práticas marginais. O que mais eu poderia fazer?

Fico me perguntando se mereço mesmo o destino que me aguarda na manhã imperdoável que caminha em minha direção. O cadafalso já sussurra meu nome, clamando pela vendeta de todos aqueles a quem eu ceifei ou destruí a vida, ele diz que o débito será pago com a minha morte, foi o que o juiz sentenciou. E todos os presentes se encheram de júbilo. Se eles próprios pudessem teriam me matado ali mesmo a pedradas. Duvido que eles teriam coragem ou fibra suficiente para tal ato. É isso o que nos diferencia. Nós os homens de fibra e moral e esses indivíduos que se escondem por traz de seus castelos de cartas e confiam em outros poderes para fazer o que eles deveriam. Como por exemplo, o comerciante que espera que a polícia prenda o ladrão que lhe roubou. Em vez dele mesmo dar cabo do patife.

Entre nós, as bestas selvagens, o trato é olho por olho e dente por dente. É por isso que eu afirmo que pensar não é nenhuma vantagem. Não quando em sua frente tem um adversário doido de desejo de lhe expor as tripas. Não quando um médico miserável se nega a dar o remédio para a doença do seu filho porque você não tem dinheiro suficiente para pagar. Você sabe que as leis do mundo vão estar a favor do médico e até o amparam em sua covardia de porco burguês ganancioso. E mesmo que seu filho morra por não ter o remédio, as leis ainda se curvarão em solene reverência ao assassino covarde de crianças. Os poderes do mundo sempre estarão do lado destes tipos execráveis.

A verdade é que seu filho morre e nada acontece com o desgraçado que poderia evitar isso. Ele continua passeando tranqüilo pela alta sociedade, degustando seu vinho caro em seus concertos de música bacana e sarais de poesia na companhia de seus amigos, também da alta sociedade e criadores de leis. Quanto a você resta apenas vê sua esposa se entregar à loucura, por causa da morte de seu filho único. Sua miséria de bom rapaz pobre culmina com o enlouquecimento de sua amada esposa por completo. Sua esposa é levada a um sanatório e seu filho ao cemitério. O que você faria diante dessa situação? Pior ainda, o que você faria se sua esposa cometesse suicídio no manicômio.

Pois bem, eu vou te dizer o que eu fiz. Nem precisei pensar muito pra isso. Foi puramente instintivo. A vingança sem dúvida é uma das coisas que nós faz homens, e por mais que o pároco tenha me lançado no ouvido suas baboseiras religiosas, talvez temendo que o pobre devoto, ao menos era o que ele achava de mim, cometesse suicídio, nada disso, foi a ela, a vendeta, a quem eu recorri nessa hora de desespero. Ela me guiou ao meu objetivo naquele dia. Menos de uma semana após a morte de meu filho e dois dias após a morte de minha esposa.

Cheguei à casa do médico numa noite de domingo, a qual chovia bastante. Invadi a casa escalando a fachada até uma janela no primeiro andar. Como a casa estava escura, foi fácil permanecer oculto. A única dificuldade estava em caminhar por uma casa desconhecida naquela escuridão, me senti cego. Mas o ódio, ou o próprio Diabo, se é que isso existe mesmo, me guiava de alguma forma e eu acabei indo parar no quarto do filho do importante “Doutor”. Era um jovem de uns dezoito anos, eu acho, não tenho certeza, nunca fui bom o suficiente com essa coisa de idade. Quando eu entrei no quarto ele se assustou e, antes que ele pudesse gritar, eu o golpeei no rosto com violência absurda. Só isso foi o suficiente para fazer o moleque cair meio tonto. Então eu o pegue pelo pescoço e o forcei a me mostrar onde era o quarto do seu pai, isso se revelou desnecessário, pois o som da queda do garoto no chão parece ter acordado o dono da casa, porque em um instante ele estava no quarto perguntando se tudo estava bem. Essa era a oportunidade que eu estava procurando. Antes que ele pudesse entender muita coisa eu parti para cima dele, soltando o garoto no chão, ele nem teve tempo de reagir quando meus socos lhe acertaram. Á medida em que eles iam se multiplicando de encontro ao rosto do médico, ele menos oferecia resistência, mesmo assim eu não parava de socá-lo, nem mesmo quando ele caiu no chão e os respingos do seu sangue sujavam minha mão e roupa.

Só parei de socar quando percebi que o moleque tentava debilmente se levantar. Eu fui em direção a ele, o peguei pelo pescoço e o comecei a apertar com força. Eu ia matá-lo ali mesmo, na frente de seu pai impotente. Nós agora seríamos iguais, ele também saberia o que era ter um filho morto pela crueldade alheia. Só que nesse caso o filho dele ia morrer por culpa dele mesmo. Por ter se negado a salvar um inocente necessitado e incapaz de ajudar a si mesmo.   

Eu conseguia sentir a respiração do moleque se extinguir sob a crueldade de minhas mãos vingativas. Ele provavelmente já estava morrendo quando um grito vindo da porta invadiu o quarto. Pelo jeito era esposa do Doutor. Diante da visão de horror ela caiu em prantos, e veio em cima de mim. Não sei o que ela esperava fazer, só sei que em um instante eu estava largando o garoto no chão e no outro eu estava cravando a faca que eu trazia na cintura no ventre da madame. Ela caiu no chão ao lado do corpo de seu filho inútil. O Doutor começou a chorar, e isso me fez sentir mais raiva anda dele. Apesar de tudo, eu não queria ter feito aquilo com a pobre madame, se pelo menos ela não houvesse vindo para cá estaria tudo bem com ela. Não importava. Fui em direção ao médico e o chutei no ventre, desafiando-o a se levantar e me enfrentar como um homem.

O verme teve a coragem de implorar piedade por meio de grunhidos. Nessa hora eu coloquei a sola de minha bota na face dele, para humilhá-lo como a um cão. Depois voltei novamente a atenção ao meu alvo principal. E naquela hora decidi dar um fim rápido para aquilo tudo. Fui até o rapaz caído, me curvei sobre ele e com as minhas duas mãos quebrei-lhe o pescoço. A violência daquele ato me abalou no momento, tanto que lágrimas brotaram dos meus olhos, e para piorar, o som do pescoço se partindo encheu o quarto e foi acompanhado por um grito penosamente lamuriento dado pela mulher que eu havia antes esfaqueado, um grito de mãe desesperada. O pai soltava urros incompreensíveis, porem não conseguia se levantar. Eu confesso que não estava preparado para aquilo, e minha ação em seguida foi fugir daquele local o quanto antes. Sabia que eles não haviam me reconhecido naquele escuro.

Eles nunca saberiam quem os atacou se ao chegar à porta um empregado da casa, creio eu, não tivesse dado um encontrão em mim e visto meu rosto, isso antes de eu desmaiá-lo e fugir. Não o matei. Não me importava se ele me reconhece-se. Não importava, nada importava.  

Sai da casa do médico, depois da cidade e fui me esconder na floresta. O peso da culpa me atormentou durante alguns momentos daquela noite chuvosa, enquanto eu permaneci oculto num casebre de madeira, que geralmente era utilizado por caçadores durante a estação de caça, mas que agora se encontrava vazio. A culpa por ter cometido aquele homicídio não morou por muito tempo em meus pensamentos, pois, como eu disse antes e devo recordá-los, eu nunca fui muito dado às lides do pensamento e também lhes devo confessar agora que a culpa religiosa nunca foi algo que me assombrou o espírito, seja lá o que isso venha a significar.

Talvez vocês devam estar pensando que eu sou um monstro por agir de tal maneira. Mas quem vai saber? Nesses assuntos o discurso é mais delicado do que se pode imaginar. Veja bem. Porque eu ficaria com o peso na consciência por muito tempo? Meu filho único e minha esposa, as duas criaturas a quem eu amava mais do que tudo nessa vida, estavam realmente mortos. O culpado aparecia na minha frente rindo em pesadelos coloridos de festas honoráveis de gente bacana, todas as noites. O que mais me restava na vida a não ser um grande vazio abissal? Deus? Não me façam rir nos meus últimos momentos. O Senhor não tem nada que ver com esses assuntos. Eu não cuspo em seu nome, ou coisa do tipo, só acredito que Ele, se houver algum Ele, deve ter assuntos mais capitais a tratar do que as dores de um camponês imundo e sua família, e se Ele não veio em minha direção, não sou eu quem irá rastejar ao seu encontro. O engraçado é que eu sei muito bem o efeito que essas declarações produzirão na mente dessa gente pusilânime que espera pela sagrada providência enquanto os grandes usurpam tudo e produzem falsos ídolos venerandos a serem tragados por nós, a miserável massa alienada e execrável, dignos de uma piedade e dum desprezo absoluto.

Na manhã seguinte, bem cedo, um séqüito de caçadores e policiais da cidade estava em meu encalço como a um animal. Era o que eu havia me tornado. Topei com eles quando estava na floresta procurando frutas para matar a fome, que castigava meu ventre cronicamente. Eles não me viram e nem os cães de caça sentiram meu cheiro, devido a direção para onde o vento soprava, contrário a mim.

Fugi dali o mais rápido possível. Segui por dentro da floresta até chegar às montanhas, lá me ocultei muito bem. Usando meus conhecimentos de caça, pude sobreviver por semanas, não sei ao certo, o isolamento me fez perder a noção do tempo. Depois de dias escondido o grupo de perseguidores me encontrou, num início de noite quando eu voltava para o meu esconderijo com lenhas para a fogueira. A fumaça foi a minha delatora, mas se eles fossem mais espertos esperariam para me pegar dormindo, assim muitas vidas seriam poupadas da fúria de minha faca. Durante a perseguição, os perseguidores foram caindo nas surpresinhas que eu fui deixando no caminho para eles, em pouco tempo eu já possuía uma espingarda de caça, tomada de um caçador desprevenido, mas que agora descansa em paz.

Eu sozinho em minha fuga provoquei uma enorme baixa no grupo de perseguidores. Como é admirável o instinto de sobrevivência, é algo que nem mesmo nós conseguimos controlar. Eu sabia que não poderia fugir para sempre, mas iria adiar a minha captura e morte, que era o que me aguardava certamente, o mais que eu pudesse. Mas chegou uma hora em que eu acabei encurralado e não pude mais fugir. Não tinha mais bala em minha espingarda e a minha faca havia sido perdida. Eu estava cercado, mas ainda estava vivo e com meus dois punhos intactos. Quando o grupo apareceu, eu parti para cima deles com a intenção de provocar o máximo de estrago que eu pudesse, mas não pude. O tiro atravessou a minha coxa e eu caí. Tentei me levantar somente para ser golpeado com força, com a coronha de alguma espingarda. Depois disso não sei quanto tempo se passou, entre os quais eu lembro de lapsos onde eu acordava amarrado em uma padiola improvisada, sendo carregado pela floresta. Eu estava muito machucado, provavelmente enquanto estava inconsciente devo ter sido espancado, todo o meu corpo doía, mas felizmente eu não permanecia lúcido por muito tempo, a maior parte da viagem, eu permaneci desacordado. Nem sei quanto tempo demoramos a chegar de volta à cidade.

Entre uma lembrança ou outra lembro de algo que parecia uma enfermaria asquerosa e mal cheirosa, rostos de médicos e enfermeiras me olhando. Entre aqueles rostos havia um que me era conhecido, mas agora usava um tapa-olho. Senti vontade de rir, mas desmaiei. Acordei outra vez em algo como uma sala de cirurgia e senti cheiro de sangue. Aquilo me fez lembrar quando meu filho se cortou brincando com a minha faca de caça, agora perdida para sempre. Antes de apagar outra vez ouvi um daqueles fantasmas mascarados pronunciarem “gangrena”.

Sabe-se lá quanto tempo depois acordei, somente para descobrir que minha perna, a que havia sido alvejada, havia sido amputada. GANGRENA. Ecoou em minha memória como o farfalhar de folhas soltas. Quando eu me recuperei fui imediatamente levado à cela de uma prisão para aguardar meu julgamento. Eles estavam tendo o que queriam. Mas nada daquilo me abalava. Nem o desprezo e nem o ódio que lançavam sobre mim merecia a minha atenção. Tudo isso era recebido por mim com uma fria apatia. Eu só queria mesmo era morrer e deixar esse mundo para os cães e que minha alma fosse para os diabos. Que todos fossem para os diabos junto com este mundo falido e carcomido.

No dia do julgamento a algazarra tomou conta do tribunal. Como eu disse antes, a vontade da massa desvairada era a de que eu fosse levado para fora e fosse morto por pedradas antes de qualquer sentença do juiz. Mas aqueles covardes patéticos só ficaram mesmo na vontade. Mas quando o juiz declarou minha sentença à forca todos regozijaram em júbilos carnavalescos. Decidiu se que como pena pelo assassinato do jovem Benjamim, o filho do médico, e outros oito caçadores e policiais durante a minha perseguição, assim como a tentativa de assassinato de mais cinco, depois de dois dias eu seria enforcado em praça pública. O mundo seria um lugar melhor.

Depois disso fui recolhido à minha cela, para aguardar a execução. O padre veio, falou meia dúzia de baboseiras e se foi. Depois dele, para minha surpresa, veio a esposa do médico. Ela não havia morrido. Ficou parada na frente da minha cela me olhando por um tempo de maneira curiosa, parecia um misto de ódio e piedade. Sussurrou alguma coisa, não entendi direito, depois se foi. Será? Nenhum parente veio me ver.

Isso foi ontem à tarde. Agora estou eu aqui na minha noite final o dia se aproxima e a mesma vendeta que me auxiliou, semanas atrás, agora está contra mim. O que posso concluir com isso? Violência só gera violência. Quem me dera que fosse assim tão simples. Seria como acreditar que ao morrer eu vou reencontrar o meu filho e minha esposa, como naqueles contos patéticos sobre cavaleiros e princesas. Só posso curtir nesse momento uma amargura na vida, que já me é mais rara do que antes, diante do nó da forca e saber que ela sim é o meu último alento e o mais próximo de uma amante que eu posso chegar.  Os meus olhos estão tão pesados que eu mal consigo permanecer acordado. Acho que vou dormir um pouco, como se isso valesse de alguma coisa.

Os guardas me acordam, parece que chegou a hora, não quis última refeição e meu último pedido foi para que o processo de execução fosse logo apressado. Levanto-me apoiando-me nas muletas com dificuldade. Não algemam minhas mãos. Assim consigo caminhar melhor. Queria poder continuar esse registro, mas não posso mais. Depois de minutos caminhando chegamos ao local da execução, tem muita gente reunida para ver a fim do “Assassino Louco da Floresta”, foi o nome que me deram. Entre a platéia consigo reconhecer os rostos admirados de muitos vizinhos meus. O grito é incessante. “ENFORCA, ENFORCA”, o médico está sobre o palanque. Veio pessoalmente, ainda com o tapa-olho, devo tê-lo cegado. Encara-me com nojo, mas não tem coragem de me bater, se limita a cuspir-me a face, eu cuspo de volta na dele e sou golpeado pelo carrasco, cuspo sangue na face encapuzada e rio. Ele não faz mais nada, só me coloca sobre o cadafalso. Agora eu sei que meu destino está próximo. O médico está limpando o rosto com um lenço, a multidão grita pela minha morte, o carrasco coloca um saco de pano em minha cabeça e a minha amada no meu pescoço. Digo em pensamentos que a amo e ela me beija o rosto. A multidão me chama de nomes vis. Não importa, nada importa. “ENFORCA, ENFORCA”. Nada Importa. Ouço o som do violino, eu poderia ter sido filósofo, poderia ter sido músico, poderia ter escrito um poema, um poema para você, meu amor, eu sou um poeta, um cisto no mundo. Seu amor quer me consumir. O patíbulo se abre sob meus pés. Queria que outrem narrasse essa parte. Não enxergo nada, só sinto o beijo sufocante de minha amada me engolindo. Vejo uma luz adiante, brincadeira. Só vejo o escuro, e ele vai me dragar. É o fim. “Eu te perdoei”, foi isso que a voz sussurrou naquela hora? Quem se importa? Te amo.                                                      

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Mater Pálida


Agora eu encerro a minha trilogia voltando à mãe, ao arquétipo, e lanço as mesmas dores sobre ela. Ao que tudo indica a mãe deve sofrer mais que os outros porque sofre duas, três vezes mais que o indivíduo que só sofre por si. Ela em contrapartida além de chorar por si mesmo, também chora a partida de sua cria, sente o chamado da natureza, ouvi os sinos da divisão tocando em seu corpo fragilizado e persisti, pois é essa a natureza da mãe, a de aceitar a sua sina e destino de “Mater Pálida”. E mesmo que a voz diga-lhe para “não persistir” a outra natureza, a feminina, a que cria e mantém, dá para ela uma nova vida, um novo orgulho. Por isso que para ela é dolorosa a separação, ver sua cria sumir na bruma. Essa é uma dor que a mãe aceita e da qual ganha mais uma cicatriz interior como medalhe. Mais que um simples poema, esse é uma ode as “Mater Pálidas” da humanidade, as Madres Terezas, Irmãs Dulces, Joanas D’Arcs, Marias Bonitas, a minha mãe, a sua, a de nós todos e a Mãe Natureza geradora e sustentadora. Esse símbolo poderia esperar até o mês que vem, para o dia das mães, mas não vai (rsrsrs) ele quer vir ao mundo agora.

Para concluir, só queria dizer que apesar do tom melancólico que cobriu essa trilogia constantemente, ela não é caracterizada pelo desespero, mas só pelo clima de chuva, pelo andamento lento de Adágio ou um estado de espírito de misticismo e observação. A tristeza que parece está presente é, antes de tudo, resignação diante da condição humana e a necessidade de saber que é preciso conseguir a força sobre esse caminho, porque é este o único que possuímos e é só com ele que podemos construir outros caminhos. 

Caminhemos!!!




   


A Mater Pálida (Guto)

(Trilogia Melancólica – Parte Final)

Mater Pálida seu fulgor se extinguiu
Junto com tua prole, que na névoa sumiu.
Caminhas sem lar, seguindo rumores.
Não deixe que esta brisa lhe lance teus horrores.
Se a dor da derrota se abrigar em teus seios
E a voz fria da brisa atingir-lhe em cheio,
E se suas palavras forem tão convincentes
Saiba que é no teu ventre que ela se faz presente
Trazendo tributos de tempos passados,
Torturando-te com as imagens de seus erros perpetuados.
Mater Pálida de negro semblante encardido
Saiba que nesse mundo só há anjos caídos,
E mesmo que da brisa não possas fugir
Ou da sua voz sussurrando “porque persistir?”
Não cubra teu corpo com trajes luto
No orgulho aceite o que lhe sobrou como fruto.
Pois se na primavera o prazer ousara consumir
Só lhe resta no inverno sentir o frio emergir
E cobrar de seu corpo o preço exigido
Mas não ache que com isso o paraíso é perdido.
E agora que caminhas sobre essa planície árida
É porque a tua sina é a da triste Mater Pálida.

Fonte da Imagem: http://2.bp.blogspot.com/_5u0VbnqQOqQ/SB12HSWV7KI/AAAAAAAABxw/B7YJhZubUnA/s400/M%C3%A3e0.jpg






quinta-feira, 8 de abril de 2010

Elegia ao Apodrecido Coração


A segunda parte da Trilogia Melancólica é dividida em duas partes. As mesmas poderiam ser classificadas em epílogo (que corresponde ao “Do princípio Amargurado”) e estória em si (Do vale Negro), Nas quais os poemas narram uma estória alegórica e filosófica de um humano qualquer que bem poderia ser eu, você ou qualquer pessoa que se julgue “humana”. A influência exercida pela brisa que invade e corrompe o “coração apodrecido” é a mesma que vemos em nossas vidas quando do momento da tal perda da inocência. Embora alguns fanáticos religiosos possam cometer o erro de associar a minha brisa poética ao diabo bíblico, não lhes tiro totalmente a razão, já que eu costumo acreditar que o “tal demônio” não passa de nós mesmos projetados em uma figura que conseguiu englobar todos os nossos atributos desprezados e repudiados por nós. Por isso a história humana conseguiu forjar tão abominável que não é nada mais que “humano, demasiado humano”, se é que vocês me entendem E é assim que a brisa vem corrompendo o coração e apodrecendo-o, com o oculto que nunca quisemos encarar em nós mesmos. Porem a corrupção não é feita através de sedução e convencimento, mas sim através da imposição e da força de atração irresistível que essa brisa lança sobre o coração, que bate em staccato ao ouvir e sentir a música chamariz, acabando por se lançar numa senda sem retorno. Arrecadando com isso o repúdio dos outros. Pretendo continuar trabalhando nesse mesmo conceito algum dia. Talvez quando eu me aposentar ou criar coragem de macho e vergonha na cara.

Apreciem   



Elegia ao Apodrecido Coração (Guto)
 (Trilogia Melancólica – Parte 02) 

I 
 (Do Princípio Amargurado)

Tenho lembranças daquela brisa que me bateu a porta,
Veio até mim e não mais quis partir.
Tenho seu cheiro presente na lembrança,
Ainda invade as minhas narinas
E me enoja a alma com seu cheiro de sangue seco.
Quero me livrar dela mais já se tornou minha parte
Sempre circundando à minha volta e consumindo-me,
Nutrindo o coração e vertendo-o em pus amarelo.
Agora cada vez que no meu peito bate o staccato ritmado
É essa brisa que me guia ao penhasco.
E lá seu império é interminável,
Sua voz se torna grito e se levanta em tempestade
Anunciando o que bem quer para me torturar
"Por que persistir?”
E eu me curvo envergonhado

II 
(Do Vale Negro)

O coração aumenta sua freqüência
Sorrindo sádico diante desta ópera de decadente opulência   
E até os vermes, que agora em seu interior se aquecem,
Lamentam o destino destas células que adoecem.
A brisa guia esse coração por um vale obscuro.
Uma pobre alma que só pedia um amor puro
Agora vaga com a bestialidade de um vil errante.
Perpetuando atos execráveis e tão ululantes.
E se os outros agora evitam o seu negro caminho
Bate mais forte e os amaldiçoa preferindo andar sozinho.
E assim percorre essa trilha como um lobo no inverno,
Mas no seu intimo ainda deseja um olhar terno.
Que lhe devolva o sentido de onde ir
Mas vem a brisa e sentencia “Por que persistir?”
E o fraco desaba e cai inerte sobre a vida
Chorando amargo e sentido o amor uma estrada perdida.





terça-feira, 6 de abril de 2010

Os Fetos Mortos na Janela

Aqui dou início à trilogia em versos que eu já vinha planejando faz algum tempo. Sem mais delongas os deixo com a primeira parte que segue abaixo:




Os Fetos Mortos na Janela (Guto)


 (Trilogia melancólica- parte 01)

Olhos vidrados na fadiga impessoal
Cair da tarde em qualquer coisa particular
Desisto de mostrar o transcender
Transcendo para aquele lado do mundo
Ele se apaga e perde a significância.
Olhos frustrados não mais irão enxergar
Esses olhos não são meus
Ele divide tudo com meu egoísmo desconexo
E sabe que chega a hora do doloroso renascer.
Falhas sem cor preenchem essa alma,
Suprem esse momento,
Pensam em castidade,
Avançam pelo mundo que nunca lhe pertenceu,
Perguntam por que afinal persistir.
Cabana do suor.
Um farol na tempestade
E tudo o mais onde se oculta a tal verdade.
Hoje devorando os outros
Penso no tempo que não mais é tempo
Quando eu era menos besta
E o coração mais cintilante
Como uma melodia que te comove
E te convence da esperança
Mas as mesmas vozes de profetas ou mau agouro
Insistem em te perguntar
“Por que diabos, persistir?”
Daí você sente subitamente
Que no céu já não brilha mais
Aquela estrela tola e retumbante.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Outono Fatigado


Hoje, dia 25/03/2010, É uma manhã de quinta feira nublada em Salvador, Bahia. Estamos no sexto dia de outono. E devo dizer que essa é uma das estações que eu mais gosto, talvez em parte porque foi nela que eu nasci, ou talvez porque depois de agüentar meses de calor insuportável, o outono venha amenizar um pouco as coisas como uma salvadora. Nada mais justo do que compor essa ode à essa estação então. O poema pode soar meio depressivo para olhos inexperientes, mas vale lembrar que tudo nele são simbolismos e alegorias como a maioria das coisas nesse blog, e é dever de quem ler tentar decifrar a charada oculta ao seu bel prazer. Já falei demais, agora ele é todo seu....




 
Outono Fatigado (Guto)

A casca mirra e se rompe
É outono.
Onde outrora havia amor
Restam os aromas e frutos do desejo.
Outono para colher as sementes que ousamos plantar,
E hoje os frutos se revelam sem destino
Sentindo o frio que vem adentrando a porta na linha do horizonte.
Outono pra nos consumir e sentir o inverno chegar.

-As folhas tombam como nós.
Tornam-se amarelas e, cheias de vigor, pulam das árvores
Antes do inevitável apodrecer
E retorno à mãe terra que nos devore.
Aproveitem os segundos prófugos,
A delícia do salto antecede o esquecimento.
A redenção que nos aguarda de frios e esquálidos braços abertos.

Fonte da Imagem: http://www.gazetadosul.com.br/blog/images/Chegada_Outono.jpg 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Talking About my Generation!!!




-Geração de Farrapos- o que isso quer dizer? Um dos motivos pelo qual eu coloquei essa expressão no poema (A Mansão Nublada) foi porque é como eu vejo a minha geração. Acho que a geração X apanharia da minha. Os nascidos a partir de 80, chamada de geração Y. Não sou nem um pouco moralista –acho que já disse isso muitas vezes- mas acontece que há um hedonismo extremamente suicida caracterizando essa geração de filhos da tecnologia de ponta e informações ultra velozes. (então é outra festa/ é outra sexta feira/ que se dane o futuro/ pois se tem a vida inteira) As palavras de Renato Russo caracterizaram bem o que vemos hoje em dia, e olhem que foram ditas pela primeira vez a quase três décadas, antes mesmo de minha geração caminhar pelas nossas festas de desespero, estávamos de fraldas ainda. Então me diga como elas podem soar tão atuais e tão presentes no nosso dia a dia? Talvez a história humana seja mesmo cíclica e se repita eternamente (um eterno retorno ao mesmo), ou talvez o ser humano seja em suma, igual em seus anseios e comportamento, e por mais que uma geração acredite na tolice de superar ou romper com a precedente, elas estão ligadas ao cordão umbilical das necessidades transitórias do amor que nós alimentamos pelo banal.

Não acho que é preciso ser nenhum gênio para perceber isso. Só somos levados, soprados como bolhas de sabão, nesse caos dos sentidos, martelados e martelados por estímulos que moldam nossos conceitos como uma colcha de retalhos de superfície, sem nenhuma profundidade da realidade à nossa volta. Acho que sempre foi assim, mas com a automatização de tudo o que antes era humano as coisas se tornaram robóticas de maneira nunca vistas.

Certo pensador disse que a tecnologia só nos afasta de nós mesmos. E se for o contrário? E se a tecnologia, ao em vez disso, nos aproximar de nosso eu banal e corruptível, nosso eu expulso do paraíso?

Acho que é preciso mais estudos sobre esse fenômeno da minha parte. Afinal eu só compreendo a minha geração a partir de mim mesmo e do que eu vejo mostrar essa juventude letárgica à minha volta, da qual eu faço parte e caminho sob seus mesmos sinais. Sempre levados e arrastados, tropeçando, mas não enxergando. O que poderíamos fazer? Que loucura.

Acho que saber que ossos envelhecem é um conhecimento maldito. Como costuma duvidar meu amigo, Izaac: “Talvez devamos ser felizes na ignorância”? É essa a mágica dessa geração? A felicidade ignorante? A tanta informação a nossa volta, tanto conhecimento, tanta porcaria filosófica, tanta merda psicológica que acabamos sabendo tudo, ou seja, nada. É como eu disse antes, almas ou colchas de retalhos de conhecimentozinho aqui, uma saberzinho ali e na verdade nada de concreto. Só um monte de zumbis arrastado pela corrente de prazeres em cada canto e afogados em mil estrelas de informação.

Tudo são formas de escapismo, e isso é perigoso. Como disse Torquato Neto: “a velha queimação de fumo o dia inteiro.”. Onde é que eu assino?

Quantos pensamentos escondido atrás de uma expressão tão minúscula.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A Mansão Nublada





Não haverá uma nota introdutória nesse poema, gostaria que quem for se atrever a lê-lo tire suas própias conclusões e se puder as envie para mim, por e mail ou comentário no blog. Acho que sou incapaz de criar uma nota para este poema sem com isso destruir todo o mistério do que ele significa para mim. Ele é todo de seu.

"Eu aprecio estes momentos(...)"by Teddy Duchamp... O Outono da Inocência - Stephen King 

A Mansão Nublada (Guto)

Um estalo ecoando na extrema distância silente
É um enigma contido em milhões de amanhecer.
Se assim quiser, cerque-me, humilhe-me, violente-me 
E castre-me
Estou aqui para tombar
Afinal, por mais que eu resista,
Somam-se à vida fatos tolos, como morrer e amar.
Só exijo o que a mim pertence
E deixo no relento esse corpo que seca,
Como uma brincadeira alquímica que já dura há anos
Até que acaba – Morre- como um cigarro até o fim tragado.
Um estalo ecoando de novo; e de novo.
Seu som irá cessar,
Irá...
Mesmo que a nossa geração de farrapos grite em uníssono
Ou até mesmo que gravemos nossa voz em LP,
Ou consumamos LSD.
Loucos Sabem Demais,
Nossos mártires estão travestidos e olham o céu sem ambições,
Eles atiram-me tua coragem artificial por correntes de e-mail
Com as vidas carecendo de significado,
Por isso componho um amém envolto em cédulas,
Para tentar, entre um gole e outro
Refletir à luz do sonho pegajoso
Esses dilemas que se queimam fácil,
Inocência que se turva em sangue bacante,
Fagueira bárbara frustrada - culpe Roma -
Altar pagão que se esvai em ritos secretos.
Enigmas de milhões de amanhecer,
E eu sempre me perco,
Levado pelo fluxo principal,
Evitando-o quão besta bíblica,
Mas sempre levado, sempre tombando
-AMANDO-
Morrendo e agonizando.
Sempre arrastado,
O corpo jazendo, ferido de morte, mas com vida,
Dane-se!
E estalando, ecoando.
Sorrindo débil, como se o amanhã fosse um lugar esquecido,
Perdido, um ideal pelo qual lutamos
Falido e fedido. 

Fonte da Imagem: http://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/01/5d/ff/a3/tarde-nublada-en-mocambique.jpg

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A Alma no Jarro

Alguns poemas são dolorosamente necessários para mim. Geralmente quando eu estou em estado de “paz de espírito”, seja lá o que isso venha a significar, escrever poemas não é um trabalho doloroso, mas o contrário disse é sempre, digamos quase um trabalho de exorcismo, e eu acho que o que eu escrevo acaba sempre sendo uma espécie de trabalho simbólico e auto-revelador. Não foi diferente com o poema que vos apresento,. Com ele, escrito em primeira pessoa, eu anuncio ao mundo que sou o único capaz de machucar. O inimigo mora dentro e não há como dele se livrar. Por isso vivo por ai em constante conflito os quais eu tento saber suas gêneses e talvez encontrar um modo de dar um fim a isso. Não sei bem se há possibilidade disso, já que ao final o poema é concluído com um emblemático “ad eternum”, que perpetua esse conflito interminável. Essa temática já foi abordada de forma parecida aqui no blog anteriormente no poema o Blues Menor. Mas nele o foco do desespero era centrado no vício, enquanto que em “A Alma no Jarro" o problema exposto tem teor existencial. É sempre o eu contra o eu, ou, fazer a tolice e depois precisar morrer, mas sabendo que nunca se quer vou lançar o punhal contra meu próprio corpo, pois sei que é preciso agüentar essas coisas, como um Harry Haller no Lobo das Estepes talvez.


A Alma no Jarro (Guto)
A arma que me fere é tão própria,
Tanto me ama que me golpeia a têmpora
E do sangue simbólico que das chagas saltam
Faço um perdão moldado em barro,
Assim crio um infinito no meu polegar
E sustento o mundo que me despreza.
Faço chances que se perdem e amargo derrotas mil
As quais eu guardo sob as camadas de folhas
Ou no abismo de um ego decadente,
Que se apaga,
Como a morte de uma estrela cintilante.
Levo tempos nas montanhas solitárias
Ou no solar das tardes rubras
Onde tudo se torna nostálgico e profundo.
Mas o limo insiste em permanecer meu companheiro
Para partirmos em viagens tolas ad eternum. 
Fonte da Imagem: http://nandomendes.com.br/wp-content/uploads/2009/01/foto-barro-com-oleiro-encarte.jpg

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os Dias






O poema trata de um tema natural, o desespero de sentir os anos passando e saber que a velhice e todas as suas irremediáveis mazelas estão próximas. Daí a vontade de fuga para terras lentas, ou até mesmo uma terra do nunca onde o garoto perdido ficaria de vadiagem por tempos indefinidos (Ronaldo que o diga, RSRSRS). Aqui a velhice é temida por trazer a fraqueza física, roubar os vigores da juventude e nos informar inconvenientemente que “os dias” já estão se esgotando.      



 Os Dias (Guto)



Com a velhice de meus ossos não aprendo nada mais,
Não há o que pensar de mim no hálito exausto,
Nem quero ver essas pernas fracas que se quebram,
Rompem-se na frieza do outono semi nublado
E não mais se erguem para avante caminhar.


Há um mundo que ficou para trás,
Por isso eu alimento o meu rebanho de desgostos,
E vou além do que me disseram ser o certo
Para ter do que se arrepender depois.


Vou fugir para a terra lânguida
Onde as meretrizes são rainhas
E os vadios de beco, seus magistrados
Mantendo a ordem clara, a qual eu nunca soube conservar.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O Sansara Interrompido






A Primeira Postagem do ano de 2010 chega a ter um título paradoxal com o fato de estarmos “re”-começando mais um ano. Sansara, que no budismo é o ciclo de repetidas mortes e renascimentos que temos que passar até atingirmos o Nirvana, no título desse poema é dito como interrompido. É ai que se encontra o choque das coisas, começamos mais um ano, mas meu poema interrompeu o sansara queimando esse corpo podre para a carne não poder voltar. Talvez tudo isso não passe do mais puro simbolismo, representado pela colocação do corpo como a morada dos desejos e instintos pecaminosos e que devesse ser queimado para que as tentações da carne não caiam mais sobre ele. Mas a coisa não é assim tão fácil, se assim o fosse, o suicídio, ou até mesmo o assassinado seriam formas de iluminação. Mas as coisas não se passam assim no budismo e também não é só isso o que o poema mostra. O fogo que queima no final é puramente simbólico, talvez seja a falta de força de alcançar o espiritual por si só, por isso é que há esse pedido de “Queimem nosso corpo podre (...)”, está mais para um pedido de socorro, um pedido que pode ser externo, aos outros, ou interno, ao seu eu interior. Mas quem seriam esses outros que o acompanham? Lembranças, fantasmas, amigos imaginários? Quem sabe?

Apreciem. Feliz 2010. 


   


O Sansara Interrompido (Guto)


Essa é a noite das alegorias do desespero,
Das almas que não querem dormir
E dos garotos ávidos pela diligência suja
Transbordante na suntuosa mansão
Onde habita minha alma suja
- Meu corpo.
Essa é a noite de despir a roupa ritualística
E caminhar pela floresta em silêncio,
Somente prestando a atenção
Em nossos irmãos selvagens
- As feras.
O amor delas é o que me acalenta
E eu retribuo à altura
Soprando a canção que não quer cessar.
Queimem nosso corpo podre
Para a carne não poder voltar.