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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A Alma no Jarro

Alguns poemas são dolorosamente necessários para mim. Geralmente quando eu estou em estado de “paz de espírito”, seja lá o que isso venha a significar, escrever poemas não é um trabalho doloroso, mas o contrário disse é sempre, digamos quase um trabalho de exorcismo, e eu acho que o que eu escrevo acaba sempre sendo uma espécie de trabalho simbólico e auto-revelador. Não foi diferente com o poema que vos apresento,. Com ele, escrito em primeira pessoa, eu anuncio ao mundo que sou o único capaz de machucar. O inimigo mora dentro e não há como dele se livrar. Por isso vivo por ai em constante conflito os quais eu tento saber suas gêneses e talvez encontrar um modo de dar um fim a isso. Não sei bem se há possibilidade disso, já que ao final o poema é concluído com um emblemático “ad eternum”, que perpetua esse conflito interminável. Essa temática já foi abordada de forma parecida aqui no blog anteriormente no poema o Blues Menor. Mas nele o foco do desespero era centrado no vício, enquanto que em “A Alma no Jarro" o problema exposto tem teor existencial. É sempre o eu contra o eu, ou, fazer a tolice e depois precisar morrer, mas sabendo que nunca se quer vou lançar o punhal contra meu próprio corpo, pois sei que é preciso agüentar essas coisas, como um Harry Haller no Lobo das Estepes talvez.


A Alma no Jarro (Guto)
A arma que me fere é tão própria,
Tanto me ama que me golpeia a têmpora
E do sangue simbólico que das chagas saltam
Faço um perdão moldado em barro,
Assim crio um infinito no meu polegar
E sustento o mundo que me despreza.
Faço chances que se perdem e amargo derrotas mil
As quais eu guardo sob as camadas de folhas
Ou no abismo de um ego decadente,
Que se apaga,
Como a morte de uma estrela cintilante.
Levo tempos nas montanhas solitárias
Ou no solar das tardes rubras
Onde tudo se torna nostálgico e profundo.
Mas o limo insiste em permanecer meu companheiro
Para partirmos em viagens tolas ad eternum. 
Fonte da Imagem: http://nandomendes.com.br/wp-content/uploads/2009/01/foto-barro-com-oleiro-encarte.jpg

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os Dias






O poema trata de um tema natural, o desespero de sentir os anos passando e saber que a velhice e todas as suas irremediáveis mazelas estão próximas. Daí a vontade de fuga para terras lentas, ou até mesmo uma terra do nunca onde o garoto perdido ficaria de vadiagem por tempos indefinidos (Ronaldo que o diga, RSRSRS). Aqui a velhice é temida por trazer a fraqueza física, roubar os vigores da juventude e nos informar inconvenientemente que “os dias” já estão se esgotando.      



 Os Dias (Guto)



Com a velhice de meus ossos não aprendo nada mais,
Não há o que pensar de mim no hálito exausto,
Nem quero ver essas pernas fracas que se quebram,
Rompem-se na frieza do outono semi nublado
E não mais se erguem para avante caminhar.


Há um mundo que ficou para trás,
Por isso eu alimento o meu rebanho de desgostos,
E vou além do que me disseram ser o certo
Para ter do que se arrepender depois.


Vou fugir para a terra lânguida
Onde as meretrizes são rainhas
E os vadios de beco, seus magistrados
Mantendo a ordem clara, a qual eu nunca soube conservar.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O Sansara Interrompido






A Primeira Postagem do ano de 2010 chega a ter um título paradoxal com o fato de estarmos “re”-começando mais um ano. Sansara, que no budismo é o ciclo de repetidas mortes e renascimentos que temos que passar até atingirmos o Nirvana, no título desse poema é dito como interrompido. É ai que se encontra o choque das coisas, começamos mais um ano, mas meu poema interrompeu o sansara queimando esse corpo podre para a carne não poder voltar. Talvez tudo isso não passe do mais puro simbolismo, representado pela colocação do corpo como a morada dos desejos e instintos pecaminosos e que devesse ser queimado para que as tentações da carne não caiam mais sobre ele. Mas a coisa não é assim tão fácil, se assim o fosse, o suicídio, ou até mesmo o assassinado seriam formas de iluminação. Mas as coisas não se passam assim no budismo e também não é só isso o que o poema mostra. O fogo que queima no final é puramente simbólico, talvez seja a falta de força de alcançar o espiritual por si só, por isso é que há esse pedido de “Queimem nosso corpo podre (...)”, está mais para um pedido de socorro, um pedido que pode ser externo, aos outros, ou interno, ao seu eu interior. Mas quem seriam esses outros que o acompanham? Lembranças, fantasmas, amigos imaginários? Quem sabe?

Apreciem. Feliz 2010. 


   


O Sansara Interrompido (Guto)


Essa é a noite das alegorias do desespero,
Das almas que não querem dormir
E dos garotos ávidos pela diligência suja
Transbordante na suntuosa mansão
Onde habita minha alma suja
- Meu corpo.
Essa é a noite de despir a roupa ritualística
E caminhar pela floresta em silêncio,
Somente prestando a atenção
Em nossos irmãos selvagens
- As feras.
O amor delas é o que me acalenta
E eu retribuo à altura
Soprando a canção que não quer cessar.
Queimem nosso corpo podre
Para a carne não poder voltar.