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sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Mater Pálida


Agora eu encerro a minha trilogia voltando à mãe, ao arquétipo, e lanço as mesmas dores sobre ela. Ao que tudo indica a mãe deve sofrer mais que os outros porque sofre duas, três vezes mais que o indivíduo que só sofre por si. Ela em contrapartida além de chorar por si mesmo, também chora a partida de sua cria, sente o chamado da natureza, ouvi os sinos da divisão tocando em seu corpo fragilizado e persisti, pois é essa a natureza da mãe, a de aceitar a sua sina e destino de “Mater Pálida”. E mesmo que a voz diga-lhe para “não persistir” a outra natureza, a feminina, a que cria e mantém, dá para ela uma nova vida, um novo orgulho. Por isso que para ela é dolorosa a separação, ver sua cria sumir na bruma. Essa é uma dor que a mãe aceita e da qual ganha mais uma cicatriz interior como medalhe. Mais que um simples poema, esse é uma ode as “Mater Pálidas” da humanidade, as Madres Terezas, Irmãs Dulces, Joanas D’Arcs, Marias Bonitas, a minha mãe, a sua, a de nós todos e a Mãe Natureza geradora e sustentadora. Esse símbolo poderia esperar até o mês que vem, para o dia das mães, mas não vai (rsrsrs) ele quer vir ao mundo agora.

Para concluir, só queria dizer que apesar do tom melancólico que cobriu essa trilogia constantemente, ela não é caracterizada pelo desespero, mas só pelo clima de chuva, pelo andamento lento de Adágio ou um estado de espírito de misticismo e observação. A tristeza que parece está presente é, antes de tudo, resignação diante da condição humana e a necessidade de saber que é preciso conseguir a força sobre esse caminho, porque é este o único que possuímos e é só com ele que podemos construir outros caminhos. 

Caminhemos!!!




   


A Mater Pálida (Guto)

(Trilogia Melancólica – Parte Final)

Mater Pálida seu fulgor se extinguiu
Junto com tua prole, que na névoa sumiu.
Caminhas sem lar, seguindo rumores.
Não deixe que esta brisa lhe lance teus horrores.
Se a dor da derrota se abrigar em teus seios
E a voz fria da brisa atingir-lhe em cheio,
E se suas palavras forem tão convincentes
Saiba que é no teu ventre que ela se faz presente
Trazendo tributos de tempos passados,
Torturando-te com as imagens de seus erros perpetuados.
Mater Pálida de negro semblante encardido
Saiba que nesse mundo só há anjos caídos,
E mesmo que da brisa não possas fugir
Ou da sua voz sussurrando “porque persistir?”
Não cubra teu corpo com trajes luto
No orgulho aceite o que lhe sobrou como fruto.
Pois se na primavera o prazer ousara consumir
Só lhe resta no inverno sentir o frio emergir
E cobrar de seu corpo o preço exigido
Mas não ache que com isso o paraíso é perdido.
E agora que caminhas sobre essa planície árida
É porque a tua sina é a da triste Mater Pálida.

Fonte da Imagem: http://2.bp.blogspot.com/_5u0VbnqQOqQ/SB12HSWV7KI/AAAAAAAABxw/B7YJhZubUnA/s400/M%C3%A3e0.jpg






quinta-feira, 8 de abril de 2010

Elegia ao Apodrecido Coração


A segunda parte da Trilogia Melancólica é dividida em duas partes. As mesmas poderiam ser classificadas em epílogo (que corresponde ao “Do princípio Amargurado”) e estória em si (Do vale Negro), Nas quais os poemas narram uma estória alegórica e filosófica de um humano qualquer que bem poderia ser eu, você ou qualquer pessoa que se julgue “humana”. A influência exercida pela brisa que invade e corrompe o “coração apodrecido” é a mesma que vemos em nossas vidas quando do momento da tal perda da inocência. Embora alguns fanáticos religiosos possam cometer o erro de associar a minha brisa poética ao diabo bíblico, não lhes tiro totalmente a razão, já que eu costumo acreditar que o “tal demônio” não passa de nós mesmos projetados em uma figura que conseguiu englobar todos os nossos atributos desprezados e repudiados por nós. Por isso a história humana conseguiu forjar tão abominável que não é nada mais que “humano, demasiado humano”, se é que vocês me entendem E é assim que a brisa vem corrompendo o coração e apodrecendo-o, com o oculto que nunca quisemos encarar em nós mesmos. Porem a corrupção não é feita através de sedução e convencimento, mas sim através da imposição e da força de atração irresistível que essa brisa lança sobre o coração, que bate em staccato ao ouvir e sentir a música chamariz, acabando por se lançar numa senda sem retorno. Arrecadando com isso o repúdio dos outros. Pretendo continuar trabalhando nesse mesmo conceito algum dia. Talvez quando eu me aposentar ou criar coragem de macho e vergonha na cara.

Apreciem   



Elegia ao Apodrecido Coração (Guto)
 (Trilogia Melancólica – Parte 02) 

I 
 (Do Princípio Amargurado)

Tenho lembranças daquela brisa que me bateu a porta,
Veio até mim e não mais quis partir.
Tenho seu cheiro presente na lembrança,
Ainda invade as minhas narinas
E me enoja a alma com seu cheiro de sangue seco.
Quero me livrar dela mais já se tornou minha parte
Sempre circundando à minha volta e consumindo-me,
Nutrindo o coração e vertendo-o em pus amarelo.
Agora cada vez que no meu peito bate o staccato ritmado
É essa brisa que me guia ao penhasco.
E lá seu império é interminável,
Sua voz se torna grito e se levanta em tempestade
Anunciando o que bem quer para me torturar
"Por que persistir?”
E eu me curvo envergonhado

II 
(Do Vale Negro)

O coração aumenta sua freqüência
Sorrindo sádico diante desta ópera de decadente opulência   
E até os vermes, que agora em seu interior se aquecem,
Lamentam o destino destas células que adoecem.
A brisa guia esse coração por um vale obscuro.
Uma pobre alma que só pedia um amor puro
Agora vaga com a bestialidade de um vil errante.
Perpetuando atos execráveis e tão ululantes.
E se os outros agora evitam o seu negro caminho
Bate mais forte e os amaldiçoa preferindo andar sozinho.
E assim percorre essa trilha como um lobo no inverno,
Mas no seu intimo ainda deseja um olhar terno.
Que lhe devolva o sentido de onde ir
Mas vem a brisa e sentencia “Por que persistir?”
E o fraco desaba e cai inerte sobre a vida
Chorando amargo e sentido o amor uma estrada perdida.





terça-feira, 6 de abril de 2010

Os Fetos Mortos na Janela

Aqui dou início à trilogia em versos que eu já vinha planejando faz algum tempo. Sem mais delongas os deixo com a primeira parte que segue abaixo:




Os Fetos Mortos na Janela (Guto)


 (Trilogia melancólica- parte 01)

Olhos vidrados na fadiga impessoal
Cair da tarde em qualquer coisa particular
Desisto de mostrar o transcender
Transcendo para aquele lado do mundo
Ele se apaga e perde a significância.
Olhos frustrados não mais irão enxergar
Esses olhos não são meus
Ele divide tudo com meu egoísmo desconexo
E sabe que chega a hora do doloroso renascer.
Falhas sem cor preenchem essa alma,
Suprem esse momento,
Pensam em castidade,
Avançam pelo mundo que nunca lhe pertenceu,
Perguntam por que afinal persistir.
Cabana do suor.
Um farol na tempestade
E tudo o mais onde se oculta a tal verdade.
Hoje devorando os outros
Penso no tempo que não mais é tempo
Quando eu era menos besta
E o coração mais cintilante
Como uma melodia que te comove
E te convence da esperança
Mas as mesmas vozes de profetas ou mau agouro
Insistem em te perguntar
“Por que diabos, persistir?”
Daí você sente subitamente
Que no céu já não brilha mais
Aquela estrela tola e retumbante.