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terça-feira, 18 de maio de 2010

Prelúdios da Forca (Guto)



 

É tarde da noite e, sentado na minha imunda cela, eu penso, e isso chega a ser até uma ironia. Afinal homens da minha estirpe nunca foram dados ao pensamento e muito menos a explanações filosóficas, pois eu sempre achei que o homem é um animal, e como tal ele não nasceu para perder tempo pensando, mas sim vivendo, agindo e lutando de acordo com seus extintos e necessidades. E para isso, pensar não passa de uma excentricidade e um capricho desnecessário na maioria das vezes.

Passei tanto tempo com essa idéia na cabeça e só agora percebo que ela também é um pensamento ou algum tipo de corrente filosófica, comigo mesmo sendo seu maior sacerdote e fiel. Talvez isso signifique que nem mesmo os indivíduos mais truculentos e biltres, como eu, possam escapar de ter pelo menos uma forma de filosofia norteando-lhe a vida. Da mesma forma que, acho eu, até os mais rebuscados pensadores não possam evitar cair no instintivo e primitivo às vezes.

O leitor ao se deparar com tais revelações e conclusões devem estar por imaginar que belo pensador eu não poderia ter sido, se não houvesse escolhido pela vida da criminalidade. Na verdade o motivo único que me leva nesse momento a me lançar nesses devaneios verossimilmente metafísicos é o fato de me encontrar enjaulado, tal como uma fera nociva à sociedade ordenada, o que na verdade é o que eu sou, ou me tornei. O provável é que se eu estivesse nas ruas, eu estaria unido a algum séquito de salteadores e ladrões das piores espécies realizando nossas cotidianas práticas marginais. O que mais eu poderia fazer?

Fico me perguntando se mereço mesmo o destino que me aguarda na manhã imperdoável que caminha em minha direção. O cadafalso já sussurra meu nome, clamando pela vendeta de todos aqueles a quem eu ceifei ou destruí a vida, ele diz que o débito será pago com a minha morte, foi o que o juiz sentenciou. E todos os presentes se encheram de júbilo. Se eles próprios pudessem teriam me matado ali mesmo a pedradas. Duvido que eles teriam coragem ou fibra suficiente para tal ato. É isso o que nos diferencia. Nós os homens de fibra e moral e esses indivíduos que se escondem por traz de seus castelos de cartas e confiam em outros poderes para fazer o que eles deveriam. Como por exemplo, o comerciante que espera que a polícia prenda o ladrão que lhe roubou. Em vez dele mesmo dar cabo do patife.

Entre nós, as bestas selvagens, o trato é olho por olho e dente por dente. É por isso que eu afirmo que pensar não é nenhuma vantagem. Não quando em sua frente tem um adversário doido de desejo de lhe expor as tripas. Não quando um médico miserável se nega a dar o remédio para a doença do seu filho porque você não tem dinheiro suficiente para pagar. Você sabe que as leis do mundo vão estar a favor do médico e até o amparam em sua covardia de porco burguês ganancioso. E mesmo que seu filho morra por não ter o remédio, as leis ainda se curvarão em solene reverência ao assassino covarde de crianças. Os poderes do mundo sempre estarão do lado destes tipos execráveis.

A verdade é que seu filho morre e nada acontece com o desgraçado que poderia evitar isso. Ele continua passeando tranqüilo pela alta sociedade, degustando seu vinho caro em seus concertos de música bacana e sarais de poesia na companhia de seus amigos, também da alta sociedade e criadores de leis. Quanto a você resta apenas vê sua esposa se entregar à loucura, por causa da morte de seu filho único. Sua miséria de bom rapaz pobre culmina com o enlouquecimento de sua amada esposa por completo. Sua esposa é levada a um sanatório e seu filho ao cemitério. O que você faria diante dessa situação? Pior ainda, o que você faria se sua esposa cometesse suicídio no manicômio.

Pois bem, eu vou te dizer o que eu fiz. Nem precisei pensar muito pra isso. Foi puramente instintivo. A vingança sem dúvida é uma das coisas que nós faz homens, e por mais que o pároco tenha me lançado no ouvido suas baboseiras religiosas, talvez temendo que o pobre devoto, ao menos era o que ele achava de mim, cometesse suicídio, nada disso, foi a ela, a vendeta, a quem eu recorri nessa hora de desespero. Ela me guiou ao meu objetivo naquele dia. Menos de uma semana após a morte de meu filho e dois dias após a morte de minha esposa.

Cheguei à casa do médico numa noite de domingo, a qual chovia bastante. Invadi a casa escalando a fachada até uma janela no primeiro andar. Como a casa estava escura, foi fácil permanecer oculto. A única dificuldade estava em caminhar por uma casa desconhecida naquela escuridão, me senti cego. Mas o ódio, ou o próprio Diabo, se é que isso existe mesmo, me guiava de alguma forma e eu acabei indo parar no quarto do filho do importante “Doutor”. Era um jovem de uns dezoito anos, eu acho, não tenho certeza, nunca fui bom o suficiente com essa coisa de idade. Quando eu entrei no quarto ele se assustou e, antes que ele pudesse gritar, eu o golpeei no rosto com violência absurda. Só isso foi o suficiente para fazer o moleque cair meio tonto. Então eu o pegue pelo pescoço e o forcei a me mostrar onde era o quarto do seu pai, isso se revelou desnecessário, pois o som da queda do garoto no chão parece ter acordado o dono da casa, porque em um instante ele estava no quarto perguntando se tudo estava bem. Essa era a oportunidade que eu estava procurando. Antes que ele pudesse entender muita coisa eu parti para cima dele, soltando o garoto no chão, ele nem teve tempo de reagir quando meus socos lhe acertaram. Á medida em que eles iam se multiplicando de encontro ao rosto do médico, ele menos oferecia resistência, mesmo assim eu não parava de socá-lo, nem mesmo quando ele caiu no chão e os respingos do seu sangue sujavam minha mão e roupa.

Só parei de socar quando percebi que o moleque tentava debilmente se levantar. Eu fui em direção a ele, o peguei pelo pescoço e o comecei a apertar com força. Eu ia matá-lo ali mesmo, na frente de seu pai impotente. Nós agora seríamos iguais, ele também saberia o que era ter um filho morto pela crueldade alheia. Só que nesse caso o filho dele ia morrer por culpa dele mesmo. Por ter se negado a salvar um inocente necessitado e incapaz de ajudar a si mesmo.   

Eu conseguia sentir a respiração do moleque se extinguir sob a crueldade de minhas mãos vingativas. Ele provavelmente já estava morrendo quando um grito vindo da porta invadiu o quarto. Pelo jeito era esposa do Doutor. Diante da visão de horror ela caiu em prantos, e veio em cima de mim. Não sei o que ela esperava fazer, só sei que em um instante eu estava largando o garoto no chão e no outro eu estava cravando a faca que eu trazia na cintura no ventre da madame. Ela caiu no chão ao lado do corpo de seu filho inútil. O Doutor começou a chorar, e isso me fez sentir mais raiva anda dele. Apesar de tudo, eu não queria ter feito aquilo com a pobre madame, se pelo menos ela não houvesse vindo para cá estaria tudo bem com ela. Não importava. Fui em direção ao médico e o chutei no ventre, desafiando-o a se levantar e me enfrentar como um homem.

O verme teve a coragem de implorar piedade por meio de grunhidos. Nessa hora eu coloquei a sola de minha bota na face dele, para humilhá-lo como a um cão. Depois voltei novamente a atenção ao meu alvo principal. E naquela hora decidi dar um fim rápido para aquilo tudo. Fui até o rapaz caído, me curvei sobre ele e com as minhas duas mãos quebrei-lhe o pescoço. A violência daquele ato me abalou no momento, tanto que lágrimas brotaram dos meus olhos, e para piorar, o som do pescoço se partindo encheu o quarto e foi acompanhado por um grito penosamente lamuriento dado pela mulher que eu havia antes esfaqueado, um grito de mãe desesperada. O pai soltava urros incompreensíveis, porem não conseguia se levantar. Eu confesso que não estava preparado para aquilo, e minha ação em seguida foi fugir daquele local o quanto antes. Sabia que eles não haviam me reconhecido naquele escuro.

Eles nunca saberiam quem os atacou se ao chegar à porta um empregado da casa, creio eu, não tivesse dado um encontrão em mim e visto meu rosto, isso antes de eu desmaiá-lo e fugir. Não o matei. Não me importava se ele me reconhece-se. Não importava, nada importava.  

Sai da casa do médico, depois da cidade e fui me esconder na floresta. O peso da culpa me atormentou durante alguns momentos daquela noite chuvosa, enquanto eu permaneci oculto num casebre de madeira, que geralmente era utilizado por caçadores durante a estação de caça, mas que agora se encontrava vazio. A culpa por ter cometido aquele homicídio não morou por muito tempo em meus pensamentos, pois, como eu disse antes e devo recordá-los, eu nunca fui muito dado às lides do pensamento e também lhes devo confessar agora que a culpa religiosa nunca foi algo que me assombrou o espírito, seja lá o que isso venha a significar.

Talvez vocês devam estar pensando que eu sou um monstro por agir de tal maneira. Mas quem vai saber? Nesses assuntos o discurso é mais delicado do que se pode imaginar. Veja bem. Porque eu ficaria com o peso na consciência por muito tempo? Meu filho único e minha esposa, as duas criaturas a quem eu amava mais do que tudo nessa vida, estavam realmente mortos. O culpado aparecia na minha frente rindo em pesadelos coloridos de festas honoráveis de gente bacana, todas as noites. O que mais me restava na vida a não ser um grande vazio abissal? Deus? Não me façam rir nos meus últimos momentos. O Senhor não tem nada que ver com esses assuntos. Eu não cuspo em seu nome, ou coisa do tipo, só acredito que Ele, se houver algum Ele, deve ter assuntos mais capitais a tratar do que as dores de um camponês imundo e sua família, e se Ele não veio em minha direção, não sou eu quem irá rastejar ao seu encontro. O engraçado é que eu sei muito bem o efeito que essas declarações produzirão na mente dessa gente pusilânime que espera pela sagrada providência enquanto os grandes usurpam tudo e produzem falsos ídolos venerandos a serem tragados por nós, a miserável massa alienada e execrável, dignos de uma piedade e dum desprezo absoluto.

Na manhã seguinte, bem cedo, um séqüito de caçadores e policiais da cidade estava em meu encalço como a um animal. Era o que eu havia me tornado. Topei com eles quando estava na floresta procurando frutas para matar a fome, que castigava meu ventre cronicamente. Eles não me viram e nem os cães de caça sentiram meu cheiro, devido a direção para onde o vento soprava, contrário a mim.

Fugi dali o mais rápido possível. Segui por dentro da floresta até chegar às montanhas, lá me ocultei muito bem. Usando meus conhecimentos de caça, pude sobreviver por semanas, não sei ao certo, o isolamento me fez perder a noção do tempo. Depois de dias escondido o grupo de perseguidores me encontrou, num início de noite quando eu voltava para o meu esconderijo com lenhas para a fogueira. A fumaça foi a minha delatora, mas se eles fossem mais espertos esperariam para me pegar dormindo, assim muitas vidas seriam poupadas da fúria de minha faca. Durante a perseguição, os perseguidores foram caindo nas surpresinhas que eu fui deixando no caminho para eles, em pouco tempo eu já possuía uma espingarda de caça, tomada de um caçador desprevenido, mas que agora descansa em paz.

Eu sozinho em minha fuga provoquei uma enorme baixa no grupo de perseguidores. Como é admirável o instinto de sobrevivência, é algo que nem mesmo nós conseguimos controlar. Eu sabia que não poderia fugir para sempre, mas iria adiar a minha captura e morte, que era o que me aguardava certamente, o mais que eu pudesse. Mas chegou uma hora em que eu acabei encurralado e não pude mais fugir. Não tinha mais bala em minha espingarda e a minha faca havia sido perdida. Eu estava cercado, mas ainda estava vivo e com meus dois punhos intactos. Quando o grupo apareceu, eu parti para cima deles com a intenção de provocar o máximo de estrago que eu pudesse, mas não pude. O tiro atravessou a minha coxa e eu caí. Tentei me levantar somente para ser golpeado com força, com a coronha de alguma espingarda. Depois disso não sei quanto tempo se passou, entre os quais eu lembro de lapsos onde eu acordava amarrado em uma padiola improvisada, sendo carregado pela floresta. Eu estava muito machucado, provavelmente enquanto estava inconsciente devo ter sido espancado, todo o meu corpo doía, mas felizmente eu não permanecia lúcido por muito tempo, a maior parte da viagem, eu permaneci desacordado. Nem sei quanto tempo demoramos a chegar de volta à cidade.

Entre uma lembrança ou outra lembro de algo que parecia uma enfermaria asquerosa e mal cheirosa, rostos de médicos e enfermeiras me olhando. Entre aqueles rostos havia um que me era conhecido, mas agora usava um tapa-olho. Senti vontade de rir, mas desmaiei. Acordei outra vez em algo como uma sala de cirurgia e senti cheiro de sangue. Aquilo me fez lembrar quando meu filho se cortou brincando com a minha faca de caça, agora perdida para sempre. Antes de apagar outra vez ouvi um daqueles fantasmas mascarados pronunciarem “gangrena”.

Sabe-se lá quanto tempo depois acordei, somente para descobrir que minha perna, a que havia sido alvejada, havia sido amputada. GANGRENA. Ecoou em minha memória como o farfalhar de folhas soltas. Quando eu me recuperei fui imediatamente levado à cela de uma prisão para aguardar meu julgamento. Eles estavam tendo o que queriam. Mas nada daquilo me abalava. Nem o desprezo e nem o ódio que lançavam sobre mim merecia a minha atenção. Tudo isso era recebido por mim com uma fria apatia. Eu só queria mesmo era morrer e deixar esse mundo para os cães e que minha alma fosse para os diabos. Que todos fossem para os diabos junto com este mundo falido e carcomido.

No dia do julgamento a algazarra tomou conta do tribunal. Como eu disse antes, a vontade da massa desvairada era a de que eu fosse levado para fora e fosse morto por pedradas antes de qualquer sentença do juiz. Mas aqueles covardes patéticos só ficaram mesmo na vontade. Mas quando o juiz declarou minha sentença à forca todos regozijaram em júbilos carnavalescos. Decidiu se que como pena pelo assassinato do jovem Benjamim, o filho do médico, e outros oito caçadores e policiais durante a minha perseguição, assim como a tentativa de assassinato de mais cinco, depois de dois dias eu seria enforcado em praça pública. O mundo seria um lugar melhor.

Depois disso fui recolhido à minha cela, para aguardar a execução. O padre veio, falou meia dúzia de baboseiras e se foi. Depois dele, para minha surpresa, veio a esposa do médico. Ela não havia morrido. Ficou parada na frente da minha cela me olhando por um tempo de maneira curiosa, parecia um misto de ódio e piedade. Sussurrou alguma coisa, não entendi direito, depois se foi. Será? Nenhum parente veio me ver.

Isso foi ontem à tarde. Agora estou eu aqui na minha noite final o dia se aproxima e a mesma vendeta que me auxiliou, semanas atrás, agora está contra mim. O que posso concluir com isso? Violência só gera violência. Quem me dera que fosse assim tão simples. Seria como acreditar que ao morrer eu vou reencontrar o meu filho e minha esposa, como naqueles contos patéticos sobre cavaleiros e princesas. Só posso curtir nesse momento uma amargura na vida, que já me é mais rara do que antes, diante do nó da forca e saber que ela sim é o meu último alento e o mais próximo de uma amante que eu posso chegar.  Os meus olhos estão tão pesados que eu mal consigo permanecer acordado. Acho que vou dormir um pouco, como se isso valesse de alguma coisa.

Os guardas me acordam, parece que chegou a hora, não quis última refeição e meu último pedido foi para que o processo de execução fosse logo apressado. Levanto-me apoiando-me nas muletas com dificuldade. Não algemam minhas mãos. Assim consigo caminhar melhor. Queria poder continuar esse registro, mas não posso mais. Depois de minutos caminhando chegamos ao local da execução, tem muita gente reunida para ver a fim do “Assassino Louco da Floresta”, foi o nome que me deram. Entre a platéia consigo reconhecer os rostos admirados de muitos vizinhos meus. O grito é incessante. “ENFORCA, ENFORCA”, o médico está sobre o palanque. Veio pessoalmente, ainda com o tapa-olho, devo tê-lo cegado. Encara-me com nojo, mas não tem coragem de me bater, se limita a cuspir-me a face, eu cuspo de volta na dele e sou golpeado pelo carrasco, cuspo sangue na face encapuzada e rio. Ele não faz mais nada, só me coloca sobre o cadafalso. Agora eu sei que meu destino está próximo. O médico está limpando o rosto com um lenço, a multidão grita pela minha morte, o carrasco coloca um saco de pano em minha cabeça e a minha amada no meu pescoço. Digo em pensamentos que a amo e ela me beija o rosto. A multidão me chama de nomes vis. Não importa, nada importa. “ENFORCA, ENFORCA”. Nada Importa. Ouço o som do violino, eu poderia ter sido filósofo, poderia ter sido músico, poderia ter escrito um poema, um poema para você, meu amor, eu sou um poeta, um cisto no mundo. Seu amor quer me consumir. O patíbulo se abre sob meus pés. Queria que outrem narrasse essa parte. Não enxergo nada, só sinto o beijo sufocante de minha amada me engolindo. Vejo uma luz adiante, brincadeira. Só vejo o escuro, e ele vai me dragar. É o fim. “Eu te perdoei”, foi isso que a voz sussurrou naquela hora? Quem se importa? Te amo.